O risco calculado de Damares: defender Celina na crise do BRB põe narrativa em xeque
Senadora afirmou que a governadora teria herdado uma "herança maldita" e que estaria gastando energia para resolver um problema criado por outros
Em uma ação de risco calculado, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) decidiu assumir publicamente a defesa política da governadora Celina Leão diante da crise que envolve o Banco de Brasília (BRB) e os desdobramentos do caso Banco Master.
A movimentação não passou despercebida. A senadora tem atuado para descolar a imagem de Celina do desgaste provocado pela crise financeira do BRB, que já produziu um rombo estimado em R$ 8,8 bilhões e obrigou o Governo do Distrito Federal (GDF) a buscar uma operação de crédito bilionária para socorrer a instituição.
A estratégia ficou ainda mais evidente durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, quando Damares afirmou que Celina teria herdado uma “herança maldita” e que estaria gastando energia para resolver um problema criado por outros.
O ato revela uma contradição difícil de ignorar. Afinal, de quem exatamente Celina herdou esse problema?
A atual governadora não chegou ao Palácio do Buriti vinda da oposição. Não assumiu o governo após uma ruptura política. Não venceu uma eleição prometendo corrigir erros de um grupo adversário.
Celina foi vice-governadora durante praticamente toda a gestão Ibaneis Rocha. Foi uma das principais lideranças do governo. Participou das principais agendas políticas e administrativas dos últimos anos. E assumiu o comando do Executivo justamente como sucessora natural do mesmo grupo político.
Por isso, a tentativa de apresentar a governadora como uma espécie de administradora convocada para resolver problemas de terceiros encontra um obstáculo simples: a memória do eleitor.
O cidadão comum dificilmente faz as distinções técnicas que dominam os bastidores de Brasília. Ele vê continuidade e também associa responsabilidades. É justamente aí que surge o risco para Damares.
Ao defender Celina, a senadora deixa de atuar apenas como fiscalizadora e passa a assumir a defesa de uma narrativa política específica: a de que a atual governadora deve ser vista separadamente da crise que atingiu o BRB.
O problema é que essa narrativa exige que o eleitor aceite duas ideias ao mesmo tempo. A primeira é que Celina representa a continuidade do governo para herdar seus acertos. A segunda é que ela não representa essa mesma continuidade quando o assunto são os problemas enfrentados pela gestão. Na prática, a conta política não costuma funcionar assim.
Ou seja, o debate já deixou de ser apenas financeiro ou administrativo. Tornou-se eleitoral. E quando um tema entra no terreno eleitoral, as narrativas passam a ser tão importantes quanto os fatos. Talvez por isso a defesa tenha sido feita com tanto empenho.
A cautela também ficou evidente nas redes sociais. Em publicação sobre o tema, o perfil da senadora apresentou restrições aos comentários dos usuários, reduzindo a possibilidade de interação pública justamente em um momento em que o assunto desperta forte interesse e questionamentos da população.
Acontece que Damares tem o direito de defender Celina. O que ela talvez não consiga controlar é a pergunta que inevitavelmente virá das ruas:
Se a governadora herdou uma herança maldita, quem ajudou a construir essa herança durante todos esses anos?



