Brasil

O risco é público, a conta também: o lado oculto do socorro bilionário ao BRB

Deputados autorizam manobra bilionária de R$ 6,6 bilhões em meio a questionamentos sobre transparência e investigações políticas

A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) tomou uma das decisões potencialmente mais caras dos últimos anos. Por 11 votos favoráveis, nove contrários e uma abstenção, os deputados aprovaram o acordo que permite a operação financeira de até R$ 6,6 bilhões destinada a reforçar a situação do Banco de Brasília (BRB) após a crise envolvendo o Banco Master.

A aprovação ocorreu sob o argumento de que a medida era necessária para garantir a estabilidade da instituição financeira e evitar consequências maiores para o sistema bancário local. 

Mas, passados os discursos e encerrada a votação, permanece uma pergunta que ainda não foi respondida de forma satisfatória para a população: quem assumirá os riscos dessa operação?

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de um problema do BRB.

Trata-se de uma decisão que envolve recursos públicos, garantias do Governo do Distrito Federal (GDF) e possíveis reflexos sobre a capacidade futura de investimento em áreas essenciais.

O mais preocupante é que uma operação dessa magnitude foi aprovada sem que boa parte da população compreendesse plenamente seus impactos.

Durante a tramitação, parlamentares contrários à proposta cobraram mais transparência sobre custos, condições do acordo, prazo da operação e potenciais consequências fiscais para o DF. As dúvidas foram registradas em plenário, mas a maioria decidiu seguir adiante.

E é justamente aí que nasce o problema político.

Quando um governo pede autorização para uma operação bilionária destinada a corrigir uma crise envolvendo uma instituição pública, o mínimo esperado é que a sociedade seja convencida de que aquele é o melhor caminho possível.

Mas convencer exige transparência. E transparência exige respostas.

Hoje, o cidadão comum sabe que existe uma crise envolvendo o BRB e o Banco Master. Sabe que foi aprovado um empréstimo bilionário. Sabe que o GDF entrou na equação para viabilizar a solução.

O que ele ainda não sabe, com a mesma clareza, é por que chegou-se a esse ponto e quais serão as consequências se a estratégia adotada não produzir os resultados esperados.

A situação se torna ainda mais sensível quando observada à luz do ambiente político que cerca o caso.

Segundo documentos obtidos pelo portal Vero Notícias, anexos de uma proposta de colaboração premiada atribuída ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, mencionariam 12 deputados distritais, que é metade da composição da Câmara Legislativa, como supostos beneficiários de repasses mensais que poderiam chegar a R$ 150 mil. Conforme a reportagem, as informações fariam parte de uma proposta de delação ainda em negociação e sem homologação judicial.

É importante destacar que não há confirmação judicial sobre o conteúdo dessas alegações, tampouco conclusão das investigações relacionadas ao caso. Nenhum dos parlamentares citados foi condenado e as apurações seguem em andamento.

Mas a política não vive apenas de decisões judiciais. Ela vive de confiança.

E quando metade da composição de uma Casa Legislativa aparece mencionada em reportagens sobre uma possível delação ligada ao principal personagem da crise que agora exige uma operação de R$ 6,6 bilhões, a percepção pública inevitavelmente sofre desgaste.

Não se trata de afirmar culpa. Não se trata de antecipar conclusões. Trata-se de reconhecer um fato político simples: quanto maiores as dúvidas, maior a obrigação de transparência.

É justamente por isso que as críticas feitas por setores da oposição e por nomes que se colocam como alternativas ao atual grupo político encontram eco em parte da população.

Um dos posicionamentos veio do pré-candidato Kiko Caputo. Em publicação nas redes sociais, ele classificou a aprovação da operação como o “sepultamento da moralidade” e da autonomia política da Câmara Legislativa, afirmando que os deputados transferiram para os contribuintes uma conta que deveria ser explicada pelos responsáveis pela gestão do banco.

A linguagem pode ser considerada excessiva por alguns. Mas o sentimento de desconfiança que ela tenta traduzir não é exclusividade de um pré-candidato.

Ele reflete uma pergunta que muitos brasilienses começam a fazer.

Se o BRB é patrimônio dos cidadãos do DF, por que a sociedade ainda tem tantas dúvidas sobre as decisões que levaram à atual situação?

Afinal, a função da Câmara Legislativa não é apenas aprovar projetos do Executivo, mas é também:

  • Fiscalizar;
  • Questionar;
  • Exigir explicações;
  • Proteger o interesse público.

Por isso, a questão central não é se o empréstimo era ou não necessário.

Talvez fosse.Talvez não houvesse alternativa.

Mas quando uma operação de R$ 6,6 bilhões é aprovada em meio a uma crise de confiança, investigações em andamento e dúvidas ainda não esclarecidas, a população tem o direito de exigir algo além de discursos tranquilizadores.

Tem o direito de exigir respostas, porque o dinheiro é público, o risco é público e se algo der errado, a conta também será.

Malu Alencastro

Formada em 2021, Malu Alencastro é jornalista pelo CEUB. Editora do Portal Infonews, atua na cobertura de política, economia, saúde e cidades.

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