Símbolo do “Holocausto Brasileiro”, Hospital Colônia de Barbacena encerra capítulo histórico após mais de 100 anos
Os últimos 14 pacientes que viviam na instituição foram transferidos para residências terapêuticas na cidade
Pela primeira vez desde sua fundação, há mais de 100 anos, o antigo Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, não tem mais moradores. Os últimos 14 pacientes que viviam na instituição foram transferidos para residências terapêuticas na cidade, encerrando simbolicamente um dos capítulos mais sombrios da história da saúde pública brasileira.
A despedida ocorreu na última semana e foi marcada por um ato carregado de significado. Durante uma cerimônia, a porta do Pavilhão Antônio Carlos foi fechada com um cadeado, representando o fim definitivo do modelo manicomial que marcou gerações de brasileiros.
O encerramento acontece 25 anos após a aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, que promoveu mudanças profundas no tratamento de pessoas com transtornos mentais no país.
“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta”, afirmou o secretário de Saúde de Minas Gerais, Fábio Baccheretti.
Os pacientes transferidos chegaram ao hospital ainda jovens e passaram décadas internados. Hoje, têm entre 56 e 91 anos. Sem contato com familiares e, em muitos casos, com limitações de saúde severas, eles agora passam a viver em casas adaptadas, com quartos identificados por seus nomes, espaços de convivência e maior autonomia no dia a dia.
A mudança representa mais do que uma transferência de endereço. Para especialistas e defensores da reforma psiquiátrica, simboliza a substituição do isolamento por um modelo baseado em acolhimento, convivência social e respeito à dignidade humana.
O hospital que se tornou símbolo de uma tragédia
Ao longo do século XX, o Hospital Colônia recebeu milhares de pessoas que, muitas vezes, sequer possuíam diagnóstico de doença mental. Entre os internados estavam mulheres consideradas “indisciplinadas”, pessoas em situação de pobreza, alcoólatras, homossexuais, vítimas de violência e indivíduos rejeitados pelas próprias famílias.
Relatos históricos apontam que a instituição chegou a operar com uma população até 25 vezes superior à sua capacidade.
Documentos e testemunhos também registram práticas como eletrochoques, lobotomias e contenções consideradas desumanas. Estimativas citadas por pesquisadores indicam que cerca de 60 mil pessoas morreram dentro da instituição ao longo de sua existência.
Outro episódio que marcou a história do local foi a comercialização de corpos de pacientes para faculdades de medicina durante a década de 1960. Registros apontam que mais de 1.800 corpos foram enviados para instituições de ensino em diferentes regiões do país.
As denúncias ganharam repercussão nacional após a publicação do livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. A obra ajudou a transformar o Hospital Colônia em um dos principais símbolos da luta antimanicomial no Brasil.
A transformação do modelo de cuidado
Um dos principais estudiosos da reforma psiquiátrica brasileira, o psiquiatra Paulo Amarante acompanhou parte do processo de desinstitucionalização em Barbacena.
“As primeiras experiências de reforma foram baseadas no autocuidado e na solidariedade mútua. Quando você aposta na autonomia, a pessoa melhora. Ela deixa de ser ‘o esquizofrênico do leito tal’ para voltar a ser um sujeito com vínculos e responsabilidades”, explicou.
Um marco para Barbacena
O fechamento definitivo do modelo residencial do Hospital Colônia também representa uma mudança na própria identidade de Barbacena, cidade historicamente associada ao manicômio.
“Durante muito tempo, fomos conhecidos como a ‘cidade dos loucos’. Hoje vejo essa história passando por uma reescrita. Existe uma nova linguagem de cuidado e carinho com as pessoas”, afirmou Isabelle Moreira, produtora do documentário “A Liberdade Escreve o Ponto Final”.
O cadeado fechado no antigo pavilhão não representa o esquecimento do passado. Pelo contrário. Para muitos envolvidos na transformação, o gesto serve como um lembrete permanente das violações que ocorreram atrás daqueles muros e da necessidade de preservar a memória para que episódios semelhantes jamais se repitam.
*Com informações de CNN



