Queda na Bolsa e disparada do dólar marcam manhã após eleição
A B3 acionou o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas, em uma tentativa de conter movimentos extremos no mercado financeiro
A Bolsa de Valores brasileira começou a semana sob forte pressão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. Na manhã desta segunda-feira (26), a B3 acionou o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas, em uma tentativa de conter movimentos extremos no mercado financeiro.
A medida foi tomada logo no início do pregão, após os contratos futuros do Ibovespa registrarem perdas expressivas antes mesmo da abertura oficial das operações. Quando as negociações foram retomadas, às 10h40, o mercado continuou instável. Por volta das 10h46, o principal índice da Bolsa chegou a recuar 16,94%, aos 170.340 pontos, e chegou a acumular queda de 19,85% ao longo da manhã.
O dólar também disparou. Às 9h30, a moeda norte-americana era negociada a R$ 5,60, com alta de 12,5% em relação ao fechamento anterior. Mais tarde, às 10h51, estava cotada a R$ 5,51, ainda com valorização de 10,44%.
O cenário contrasta com o desempenho da sexta-feira (23), quando o Ibovespa encerrou o pregão aos 205.082 pontos, em alta de 0,47%.
O que é o circuit breaker?
O circuit breaker funciona como uma espécie de freio de emergência do mercado financeiro. Quando a queda do Ibovespa atinge determinados limites, a Bolsa suspende temporariamente as negociações para reduzir a velocidade das oscilações e permitir que investidores reavaliem suas decisões.
No mercado à vista, o primeiro nível é acionado quando o índice cai 10% em relação ao fechamento anterior. Nesse caso, as operações ficam suspensas por 30 minutos.
Se, após a retomada, a queda chegar a 15%, uma nova interrupção poderá ocorrer, desta vez por uma hora. Caso o recuo alcance 20%, a negociação pode ser suspensa por período indeterminado, conforme as regras da B3.
O objetivo não é impedir que os preços caiam, mas evitar que movimentos extremos se intensifiquem sem uma pausa para reorganização das operações.
Mecanismo não era acionado desde a pandemia
Criado em 1997, o mecanismo já foi utilizado em diferentes períodos de instabilidade econômica. Antes do episódio desta segunda-feira, a última vez que a Bolsa brasileira havia acionado o circuit breaker foi em março de 2020, durante o início da pandemia de Covid-19.
Naquele mês, a ferramenta foi acionada seis vezes, diante das incertezas provocadas pela crise sanitária e de seus efeitos sobre a economia mundial. Outros episódios marcantes ocorreram durante a crise asiática, em 1997, a desvalorização do real, em 1999, e a crise financeira internacional de 2008.
A interrupção desta segunda-feira volta a colocar o mecanismo no centro das atenções diante da dimensão das perdas registradas na abertura do mercado.
Por que o mercado reagiu dessa forma?
A vitória de Lula no segundo turno, realizado no domingo (25), foi seguida por uma forte reação negativa dos ativos brasileiros. O resultado contrariou as expectativas de parte dos investidores, que apostavam em um cenário político diferente.
Entre as preocupações do mercado estão os rumos da política econômica, a trajetória das contas públicas e a capacidade do próximo governo de controlar o crescimento das despesas. A percepção de maior risco fiscal pode pressionar o câmbio e os juros, além de reduzir o apetite dos investidores por ações brasileiras.
A incerteza política também entrou no radar após Flávio Bolsonaro (PL), derrotado na disputa presidencial, declarar que não reconhece a vitória de Lula e que pretende pedir a anulação da eleição. A possibilidade de questionamentos judiciais acrescenta dúvidas sobre os próximos desdobramentos políticos.
Ainda assim, a reação inicial dos mercados não determina, isoladamente, o desempenho da economia nos próximos meses. A evolução dos preços dependerá, entre outros fatores, dos sinais dados pelo governo sobre sua política econômica, das medidas fiscais e da estabilidade institucional.
Ações brasileiras também sofrem pressão
A turbulência não ficou restrita à Bolsa brasileira. Antes da abertura do mercado nos Estados Unidos, ações de empresas do país negociadas no exterior também registraram perdas expressivas.
O movimento atingiu companhias de diferentes setores e refletiu a cautela dos investidores diante das perspectivas para o Brasil após a eleição. A combinação de queda das ações, valorização do dólar e aumento da incerteza reforçou a volatilidade nas primeiras horas do pregão.
O comportamento do mercado ao longo dos próximos dias deverá ajudar a mostrar se a reação desta segunda-feira representa um ajuste concentrado após o resultado eleitoral ou o início de um período mais prolongado de instabilidade.



