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Nas tendas e entre ruínas, crianças de Gaza voltam a sonhar com a escola

O retorno às salas de aula aconteceu no sábado (20) em um cenário muito diferente do vivido antes da guerra

O retorno às salas de aula em Gaza aconteceu no sábado (20) em um cenário muito diferente do vivido antes da guerra. Depois de quase três anos longe do ensino presencial, milhares de crianças voltaram a estudar em tendas, estruturas provisórias e prédios escolares atingidos pelo conflito.

A retomada ocorre em meio a uma grave crise educacional. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 98% das escolas do território foram destruídas ou sofreram danos durante a guerra. Autoridades palestinas da área de educação estimam que cerca de 660 mil estudantes ficaram sem acesso regular às aulas presenciais.

O novo ano letivo começa, portanto, sob limitações que vão desde a falta de salas adequadas até a escassez de materiais básicos.

De volta à escola, apesar das perdas

Para muitos estudantes, a retomada representa o reencontro com uma rotina interrompida pelo conflito.

Em Khan Younis, Moayed Abu Mustafa contou que não frequentava uma escola havia três anos. Mesmo diante das condições precárias, ele disse estar determinado a continuar os estudos.

“A última vez que fui à escola foi há três anos. Agora, estamos começando o ano letivo; é um ano de alegria, felicidade e sucesso.”

O estudante afirmou que pretende seguir aprendendo mesmo sem estrutura adequada, usando uma tenda como sala de aula e enfrentando a falta de materiais, roupas e calçados.

“Apesar de tudo isso, vamos aprender, vamos aprender mesmo que seja em uma barraca.”

A adolescente Samar Abu Salmi, de 15 anos, também voltou às aulas após passar parte do período estudando por meio de celulares. Deslocada pela guerra, ela vive atualmente com a família em uma barraca.

“Estudávamos nos celulares e não víamos nossos professores. Agora, estamos de volta, perseguindo nosso sonho, de uma barraca para outra.”

Segundo Samar, itens que antes faziam parte da rotina escolar se tornaram difíceis de conseguir.

“Antes da guerra, tudo estava ao nosso alcance – cadernos, canetas, produtos, roupas, passeios, coisas que podíamos comprar por um preço baixo.”

Salas improvisadas e estrutura precária

Para tentar garantir a continuidade do calendário escolar de 2026-2027, o Ministério da Educação, com apoio de organizações locais e internacionais, criou dezenas de unidades temporárias.

As estruturas utilizam materiais como lonas, chapas metálicas, madeira e tendas. Em alguns pontos, as aulas acontecem diretamente sobre o solo arenoso. Há locais em que poucos colchões e um quadro formam praticamente toda a estrutura disponível para os alunos.

Em algumas áreas, os mesmos espaços ainda são utilizados por famílias deslocadas.

A situação também afeta a sensação de segurança dos estudantes. Yamen Abu Samra, de 14 anos, relatou a diferença entre a experiência escolar anterior à guerra e a realidade atual.

“Costumávamos acordar felizes para ir à escola. Agora, quando chegamos à escola, temos medo de balas perdidas, foguetes, ataques, tudo.”

O adolescente também descreveu as condições enfrentadas durante as aulas.

“Agora, estou sentado em uma barraca que não tem absolutamente nada, apenas o sol e o calor.”

Centenas de milhares voltam ao ensino presencial

A estimativa é que pelo menos 540 mil estudantes participem de atividades presenciais neste ano, distribuídos entre escolas particulares improvisadas, centros temporários de aprendizagem e outros espaços educacionais.

O ensino a distância continuará disponível para crianças que não conseguem frequentar as aulas presencialmente ou que deixaram Gaza durante a guerra.

A retomada acontece enquanto a infraestrutura educacional continua fortemente comprometida. Segundo Ibrahim Ramadan, diretor de Educação de Khan Younis Oriental, cerca de 22 mil estudantes e mais de 770 profissionais da educação, incluindo 532 professores, morreram durante o conflito.

Material escolar também virou problema

Além da destruição das escolas, a falta de produtos básicos pesa sobre as famílias. O comerciante Khaled Aliyan, de 30 anos, que trabalha com artigos de papelaria, relatou que as restrições à entrada de mercadorias reduziram a oferta e fizeram os preços dispararem.

“Este caderno, que costumava custar 3 shekels [US$1], agora custa 15 [shekels]. Todos os artigos de papelaria estão caros.”

A agência militar israelense Cogat, responsável pelo controle do acesso a Gaza, não respondeu ao pedido de manifestação sobre as restrições ao abastecimento e os ataques contra escolas.

Israel afirma, por sua vez, que o Hamas utiliza escolas para fins militares. O grupo palestino nega a acusação.

Educação em meio ao conflito

A volta às aulas ocorre após anos de interrupção provocada pela guerra iniciada em outubro de 2023. Segundo autoridades palestinas, mais de 73 mil pessoas morreram em Gaza durante a ofensiva israelense, iniciada após o ataque liderado pelo Hamas no sul de Israel, que deixou cerca de 1,2 mil mortos.

Mesmo com o cessar-fogo do ano passado, que interrompeu os principais combates, a situação no território continua marcada por destruição e restrições. Forças israelenses seguem controlando mais de 60% de Gaza, segundo as informações apresentadas.

Neste cenário, a reabertura das escolas representa uma tentativa de reconstruir parte da rotina das crianças. Para muitos estudantes, porém, voltar à escola significa também aprender em meio às marcas deixadas pela guerra.

*Com informações de Agência Brasil

Malu Alencastro

Formada em 2021, Malu Alencastro é jornalista pelo CEUB. Editora do Portal Infonews, atua na cobertura de política, economia, saúde e cidades.

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