Trump amplia tarifa contra o Brasil e eleva taxação para até 37,5%
O etanol brasileiro está entre os principais produtos impactados pelas novas barreiras comerciais
Os Estados Unidos passam a aplicar, a partir desta sexta-feira (24), uma nova tarifa adicional de 12,5% sobre milhares de produtos brasileiros. A cobrança foi anunciada pelo governo norte-americano na quinta-feira (23) e, na maior parte dos casos, será somada à sobretaxa de 25% que entrou em vigor nesta semana.
Na prática, diversos produtos exportados pelo Brasil enfrentarão uma tributação extra de até 37,5% para acessar o mercado dos Estados Unidos. Com isso, o país passa a figurar entre os parceiros comerciais mais atingidos pelas medidas tarifárias adotadas por Washington, ficando atrás apenas da China.
A nova tarifa foi estabelecida após uma investigação conduzida com base na Seção 301 do Trade Act de 1974. O governo dos EUA alega que o Brasil não adota medidas suficientes para combater o trabalho forçado em determinadas cadeias produtivas.
A medida se soma a outra investigação aberta anteriormente, também fundamentada na mesma legislação, que questiona supostas práticas comerciais consideradas desleais e questões relacionadas ao desmatamento. Dessa apuração surgiu a sobretaxa de 25%, anunciada em 15 de julho e já em vigor desde esta semana.
Levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) aponta que a nova tarifa atinge cerca de 3 mil produtos brasileiros, responsáveis por aproximadamente US$ 12,5 bilhões (cerca de R$ 63,7 bilhões) em exportações anuais para os Estados Unidos.
Segundo a entidade, cerca de 85,3% desse volume, o equivalente a US$ 10,7 bilhões (R$ 54,6 bilhões), ficará sujeito à cobrança acumulada das duas sobretaxas.
Na prática, a incidência conjunta alcança praticamente todos os produtos brasileiros que não aparecem nas listas de exceção divulgadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para ambas as investigações.
Etanol entre os mais afetados
O etanol brasileiro está entre os principais produtos impactados pelas novas barreiras comerciais.
De acordo com os documentos da investigação da Seção 301, o acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro foi um dos argumentos utilizados para justificar a abertura do processo contra o Brasil, em julho de 2025.
Como o combustível foi incluído tanto na tarifa de 25% quanto na nova sobretaxa de 12,5%, e não integra nenhuma das listas de exceção, a carga tributária adicional chega aos 37,5%.
Durante a consulta pública promovida pelo USTR, produtores dos Estados Unidos defenderam a aplicação das tarifas, alegando que políticas adotadas pelo Brasil reduziram a competitividade do etanol norte-americano.
Por outro lado, representantes de outros setores alertaram que a cobrança acumulada seria desproporcional e poderia reduzir o comércio entre os dois países, além de elevar custos para empresas importadoras e consumidores nos Estados Unidos.
Produtos que ficaram de fora
As duas medidas mantêm praticamente a mesma relação de exceções, preservando produtos considerados estratégicos para a economia norte-americana ou já submetidos a outras tarifas específicas.
Entre os itens excluídos estão aeronaves civis, motores e componentes da indústria aeronáutica, produtos de aço e alumínio já tributados pela Seção 232, ferro-gusa, pelotas de minério de ferro, sucata metálica, hidróxido de alumínio, materiais informativos, como livros e filmes, doações humanitárias, bagagens de uso pessoal e alguns produtos agropecuários e florestais, como determinados tipos de madeira tropical, café solúvel não aromatizado, mel orgânico e cortes específicos de carne bovina.
Exportações já registram impacto
Os efeitos das tarifas impostas desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em fevereiro de 2025, já aparecem nas exportações brasileiras.
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que 20 dos 27 estados registraram queda nas vendas para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Desde março de 2025, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano recuaram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões.
Entre os estados com maior retração estão Acre (-62,8%), Tocantins (-52,1%), Rondônia (-49,1%) e Amapá (-41,2%). O Pará apresentou redução de 31,4%, enquanto o Amazonas registrou queda de 2,6%.
A principal redução ocorreu nas exportações de bens industriais, especialmente produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira, derivados de petróleo e ligas metálicas.
Governo promete resposta
Após o anúncio da nova sobretaxa, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reafirmou que utilizará os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade para responder às medidas adotadas pelos Estados Unidos.
Em nota divulgada nesta quinta-feira, o Palácio do Planalto informou que dará início “imediatamente” aos procedimentos para aplicar a legislação brasileira e também recorrerá ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O governo brasileiro também criticou a justificativa apresentada pelos Estados Unidos, afirmando que o tema do trabalho forçado foi utilizado para respaldar uma política comercial protecionista.
“Na ausência de base legal interna para sustentar sua política comercial protecionista, o USTR optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais”, diz trecho da nota oficial.
*Com informações de Metrópoles



