Novo remédio contra câncer de pâncreas emociona médicos após dobrar sobrevida de pacientes
Resultados foram obtidos nos EUA e chegada ao Brasil ainda depende de aprovação
Um estudo apresentado durante a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), considerada o principal congresso de oncologia clínica do mundo, trouxe uma das notícias mais promissoras dos últimos anos para pacientes com câncer de pâncreas metastático.
Os resultados do ensaio clínico de fase 3 do medicamento daraxonrasib mostraram que o tratamento foi capaz de praticamente dobrar a sobrevida de pacientes que já não respondiam à quimioterapia convencional. A apresentação dos dados, em Chicago, nos Estados Unidos, provocou uma reação incomum entre pesquisadores e médicos presentes no evento, com aplausos de pé ao final da sessão.
O medicamento já havia chamado atenção em abril, quando resultados preliminares foram divulgados pela farmacêutica responsável pelo desenvolvimento da droga. No entanto, a confirmação veio agora com a conclusão da fase 3 do estudo, considerada a etapa mais rigorosa antes da aprovação para uso em larga escala.
Resultados considerados históricos
Batizado de RASolute 302, o estudo acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu o daraxonrasib em comprimidos diários, enquanto o outro continuou o tratamento padrão com quimioterapia.
Os resultados mostraram uma diferença significativa entre os grupos.
Entre os pacientes com a mutação RAS G12, uma das mais frequentes nesse tipo de câncer, a sobrevida mediana chegou a 13,2 meses para quem utilizou o novo medicamento. No grupo tratado com quimioterapia, a mediana foi de 6,6 meses.
Os pesquisadores também observaram redução de 60% no risco de morte e um aumento no período em que a doença permaneceu controlada, passando de 3,5 meses para 7,3 meses.
Outro dado considerado relevante foi a resposta ao tratamento. Cerca de 31% dos pacientes que receberam o daraxonrasib apresentaram redução mensurável dos tumores, enquanto no grupo da quimioterapia o índice ficou em pouco mais de 11%.
Além da eficácia, o medicamento apresentou menor taxa de interrupção por efeitos adversos. Apenas 1,2% dos pacientes precisaram suspender o tratamento, contra 11,2% entre aqueles submetidos à quimioterapia.
Os resultados foram publicados no Journal of Clinical Oncology e levaram os autores do estudo a defender que o daraxonrasib se torne o novo padrão terapêutico para pacientes com câncer de pâncreas metastático após falha da quimioterapia.
Reação dos especialistas
Presente na apresentação dos dados em Chicago, o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, destacou ao g1 a relevância dos resultados.
“Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença”, afirmou.
Segundo ele, os números representam um avanço importante em uma das áreas mais desafiadoras da oncologia.
“Eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido”, disse.
Stefani também ressaltou que a sobrevida apresentada no estudo representa uma mediana, o que significa que parte dos pacientes conseguiu viver por períodos ainda maiores.
“Os 13 meses são uma mediana. Há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa”, explicou ao g1.
Por que o câncer de pâncreas é tão difícil de tratar?
O câncer de pâncreas está entre os tumores mais agressivos da medicina. Em grande parte dos casos, a doença não apresenta sintomas nas fases iniciais e acaba sendo descoberta apenas quando já se espalhou para outros órgãos.
Estima-se que cerca de 80% dos pacientes recebam o diagnóstico em estágio avançado ou metastático, o que reduz significativamente as opções de tratamento.
Grande parte dessa dificuldade está relacionada a alterações em uma proteína chamada RAS. Quando sofre mutações, ela passa a estimular continuamente o crescimento das células tumorais.
Por décadas, cientistas tentaram desenvolver medicamentos capazes de bloquear essa proteína, considerada por muitos especialistas como um dos maiores desafios da oncologia moderna.
O daraxonrasib surge justamente como uma tentativa bem-sucedida de atingir esse alvo molecular, oferecendo uma nova alternativa para pacientes que até então tinham poucas opções terapêuticas disponíveis.
Próximos passos
Com os resultados da fase 3 concluídos, a farmacêutica Revolution Medicines informou que pretende solicitar a aprovação do medicamento junto à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos.
A droga já recebeu classificações especiais que aceleram a análise regulatória, incluindo o status de Breakthrough Therapy, concedido a tratamentos que demonstram vantagens significativas em relação às opções já existentes.
No Brasil, entretanto, o caminho ainda deve ser mais longo. Qualquer eventual liberação dependerá da análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de futuras avaliações sobre incorporação ao sistema de saúde.
Para Stefani, os resultados apresentados representam mais do que um avanço estatístico.
“O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada: a de oferecer ganho real em sobrevida a pacientes que, até agora, tinham poucas alternativas”, concluiu ao g1.



