O ex-presidente José Sarney divulgou uma carta em defesa da urna eletrônica e do sistema eleitoral brasileiro, exaltando o papel da tecnologia no combate às fraudes e na consolidação da democracia no país. O texto foi motivado por um discurso do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, elogiando o processo de informatização das eleições brasileiras.
Ao longo da carta, Sarney mistura memória política, bastidores históricos e episódios curiosos para sustentar a ideia de que a urna eletrônica representou uma ruptura com décadas de distorções eleitorais. O ex-presidente afirma ter acompanhado praticamente todas as fases do sistema eleitoral brasileiro, desde as antigas cédulas de papel até a implementação definitiva da votação eletrônica em todo o país.
Sarney relembra que iniciou sua trajetória política em 1954, quando os votos ainda eram registrados em cédulas manuais, modelo que, segundo ele, abria espaço para manipulações e fraudes. O ex-presidente cita episódios ocorridos no Maranhão para ilustrar o cenário da época, incluindo a criação de eleitores fantasmas com sobrenomes improvisados.
Um dos trechos mais curiosos do texto envolve a chamada “família Kodak”. Segundo Sarney, em Parnarama (MA), fotos compradas de outros estados teriam sido utilizadas em títulos eleitorais falsos. Como faltavam nomes para registrar novos eleitores fantasmas, teriam surgido personagens como “João Kodak”, “Maria Kodak” e “Joaquim Kodak”, em referência à marca de máquinas fotográficas.
O ex-presidente também relembra sua atuação no Congresso em defesa da modernização do sistema eleitoral e afirma que, durante seu governo, incentivou o então presidente do TSE, ministro Néri da Silveira, a iniciar o processo de informatização das eleições. O avanço culminaria anos depois na implementação das urnas eletrônicas, usadas pela primeira vez em larga escala em 1996 e adotadas em todos os municípios brasileiros a partir de 2000.
Na avaliação de Sarney, a urna eletrônica trouxe rapidez, transparência e segurança ao processo eleitoral. Ele destaca que, antes da informatização, as apurações demoravam dias e eram frequentemente alvo de suspeitas. Hoje, segundo ele, o resultado das eleições é conhecido poucas horas após o encerramento da votação.
O ex-presidente ainda associa a urna eletrônica à redução da influência de grupos políticos locais sobre os eleitores. Para ele, o sistema garantiu mais liberdade ao voto ao eliminar pressões que existiriam em modelos antigos de votação.
Em outro trecho, Sarney menciona diretamente críticos históricos da urna eletrônica. Ele cita o ex-governador Leonel Brizola e o ex-presidente Jair Bolsonaro como figuras que defenderam modelos diferentes de votação ou o voto impresso.
Encerrando a carta em tom nostálgico e pessoal, Sarney afirma que a urna eletrônica “continua virgem” e nunca teve sua “pureza maculada”. Ele ainda parabeniza Kassio Nunes Marques pela defesa pública do sistema eleitoral e celebra os 30 anos da urna eletrônica no Brasil.
“Minha urna, meu amor. Viva!”, conclui o ex-presidente.



